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Este militante anti-cinzentista adverte que o blogue poderá conter textos ou imagens socialmente chocantes, pelo que a sua execução incomodará algumas mentalidades mais conservadoras ou sensíveis, não pretendendo pactuar com o padronizado, correndo o risco de se tornar de difícil assimilação e aceitação para alguns leitores! Se isso ocorrer, então estará a alcançar os seus objectivos, agitando consciências acomodadas, automatizadas, adormecidas... ou anestesiadas por fórmulas e conceitos preconcebidos. Embora parte dos seus artigos possam "condimenta-se" com alguma "gíria", não confundirá "liberdade com libertinagem de expressão" no principio de que "a nossa liberdade termina onde começa a dos outros".(K.Marx). Apresentará o conteúdo dos seus posts de modo satírico, irónico, sarcástico e por vezes corrosivo, ou profundo e reflexivo, pausadamente, daí o insistente uso de reticências, para que no termo das suas análises, os ciberleitores olhem o mundo de uma maneira um pouco diferente... e tendam a "deixá-lo um bocadinho melhor do que o encontraram" (B.Powell).Na coluna à esquerda, o ciberleitor encontrará uma lista de blogues a consultar, abrangendo distintas correntes político-partidárias ou sociais, o que não significará a conotação ou a "rotulagem" do Cidadão com alguma delas... mas somente o enriquecimento com a sua abertura e análise às diferenciadas ideias e opiniões, porquanto os mesmos abordam temas pertinentes, actuais e válidos para todos nós, dando especial atenção aos "nossos" blogues autóctones. Uma acutilância daqui, uma ironia dali e uma dica do além... Ligue o som e passe por bons e espirituosos momentos...

sábado, 28 de agosto de 2010

UMA AVENTURA NA ETAR




UMA AVENTURA NA ETAR

Calçadas as velhas botas e envergadas as calças de combate, naquela solarenga tarde de Agosto este praça foi ao encalço da ETAR das Arreciadas...
...Pretendendo saber in-loco como funcionaria um sistema  de tratamento de águas residuais, pareceu-lhe ser o local indicado para estudar a actividade depuradora, inspirando-se nos aromas dali emanados. Com a digital a tiracolo, abordou a infra-estrutura desviando-se por um caminho arenoso, cem metros à esquerda da estrada das vinhas de quem sobe ás Arreciadas...
Aquele conjunto de tanques estava vedado por uma malha de rede e no portão de acesso constava um painel azul referindo a concessionária de manutenção Arabrantes.
Estranho... no início de 2008, a Arabrantes houvera passado a pasta à Abrantáqua, portanto há dois anos e meio... Reparando melhor no poste encimando um colector solar, este rapaz concluiu que a maquineta funcionava em regime autónomo...
Sacada a digital, houve que analisar e fotografar o admirável sistema de funcionamento, na idéia que as águas dos esgotos urbanos estariam sujeitas a diversas fases de depuração e decantação antes de se lançarem ligeiras pelos cursos de águas naturais.
As águas residuais que chegavam à ETAR  deveriam passar por um tratamento preliminar que consistiria em circularem através de um gradeamento que retivesse os materiais sólidos de grandes dimensões. As substâncias sólidas em suspensão depositar-se-iam no fundo dos decantadores.
Aqui seria feita uma operação de desengorduramento que consistiria na remoção de gorduras e óleos presentes nas águas residuais.
As águas resultantes passariam por um segundo tanque que as oxigenaria através da agitação mecânica.
Seguir-se-ia um processo biológico que consistiria na passagem da água por um tanque com bactérias (glutões) que  iriam “comer” as matérias orgânicas em suspensão. As bactérias desenvolver-se-iam, agrupando-se em flóculos que seriam separados através da decantação por gravidade. Estes flóculos, designados por lamas, seriam depois enviados para outra unidade afim do seu tratamento.
A água passaria por um tanque onde seria desinfectada com cloro, ozono e raios ultravioleta.
Vencido este tratamento, a água seria finalmente direccionada para os rios ou para o oceano, sem riscos de contaminação.
E... porque este texto vem sendo redigido no futuro do pretérito condicional?
Na realidade esta ETAR em nada se coadunava com as noções contidas em mente... parecia que os serviços tinham optado pelo sistema de lamas activadas...
Em que o efluente do tratamento preliminar seria encaminhado para um decantador primário, seguindo para o tanque de arejamento, com recirculação permanente.
Seguidamente, as águas residuais seriam conduzidas para um decantador secundário e a partir daí parte delas seriam despejadas numa linha de água enquanto a outra parte circularia novamente no tanque de arejamento.
A eficiência do tratamento seria optimizada se ao caso, a recirculação de lamas para o tanque de arejamento fosse efectuada do fundo do decantador secundário, pois a matéria orgânica concentrada, também aumentaria a concentração de biomassa no dito tanque, possibilitando aos microrganismos uma nova oportunidade para degradarem o substrato (matéria orgânica).
Hum...
Tanta prosápia com estes tanques de decantação completamente secos!
Não cheirava...
Aliás...
          A norte...
                     É que cheirava a merda...
Naquele pinhal ocupado com umas vacas...
    Chatice!
               Estava vedado!
                          Ora... onde seria o portão... ah!
Era mais adiante... teria que arriscar por uma boa causa...
Recuado o belho pressionado por uma forte mola, houve que entrar... a cada passo, as botas mais se enterravam no terreno arenoso... e as vacas espantadas davam ás de vila diogo debandando em todas as direcções, menos na do Cidadão abt...
Parecia impossível como bicharocos tamanhões guardavam tanto temor a um só homem!
Todos... não...uma vaca mais além... não parecera mostrar grande receio... aproximou-se...
    Mais e mais...
             Cada vez mais...
De pêlo curto e castanho, baixou o cachaço, exibindo hastes pontiagudas de dimensões consideráveis... seria míope ou coisa assim...
Deu ares de constipada... com a gripe das vacas... ou outra cena marada... resfolegou... e escavando o terreno arenoso com a pata dianteira... resfolegou novamente...
Estaria louca...
 Aproximou-se progressivamente deste praça enquanto as restantes se mantiveram distantes, atentas e de ar expectante, como aguardando por um  qualquer desfecho...
C’um catano!
Cá tinha a explicação para quão grande interesse!
Aquele era o macho da manada!
A última vez que houvera tido uma experiencia parecida fora nos anos oitenta, junto ás margens do Nabão, pelos lameiros da Quinta do Falcão...
Nesse dia aziado, a mochila de sessenta litros e sete quilos continha duas faixas vermelhas na vertical e houvera que “sprintar” para afastar o animal do resto do pessoal, atraindo-o na direcção deste desafortunado, seguindo-se uma espécie de salto mortal por cima da vedação em arame que naqueles momentos parecia bué distante, tendo-se o lustroso Miúra negro enfeixado nela, torcendo uns quantos postes de madeira!
Mas, nesta situação embaraçosa não havia alguém por perto que soltasse as fatídicas gargalhadas.... Só se fossem os bichanos a fazê-lo... não parecia andar por'li “La vache qui rit”, dos fromages... todas aparentando ares sisudos...
Aquilo não estava a ter gracinha alguma...
Que susto!
De entre silvas e o marulhar de águas, súbitamente saltitou um laparote...
A cada passo, as areias prendiam um possível movimento de fuga e com a poeirada cinzenta que se levantava, botas e calças uniformizaram tonalidades!
O Cidadão abt aproximou-se de um pinheiro... com o bovino acercando-se mais, e... muito... mais... 
??Estaria ao serviço da concorrência blogueira?
Este praça já se imaginava parangona das páginas centrais do Correio da Manhã, ao género:
“-homem colhido por um boi, na ETAR das Arreciadas, deu entrada no hospital de Abrantes com três costelas fracturadas”
 ...Em desespero de causa, resolveu sair detrás do tronco da árvore e gesticulando qual foi o espanto pois, gesticulando desalmadamente como o Cristo-Rei, fez o bicharoco bater em retirada a catorze patas!
Afinal o gajo era míope... ou cagarolas...
“Ca.ga.roooolas!!”! 
-És um medricas! Pá!

Gritou cá o Cidadão abt a plenos pulmões... com o bicharoco enveredando por uma segunda corrida, encaixando-se numa esquina da vedação!
Qual camaleão estrábico de olho nos animais, este rapazola procurou a fonte daquelas marulhantes águas.
Era ali... saindo pelo topo daquele colector de esgoto!
Fantástico! Aquilo mais fazia lembrar um vulcão prestes a entrar em actividade...
Seguindo o percurso daquela ribeira de caca antracitada pela ladeira abaixo... este Cidadão reparou que dezenas de metros mais adiante e após outra erupção...
 ...o fluxo inflectia em direcção à estrada esburacada das vinhas, cruzando-a através de uma conduta construída a propósito em cimento armado, formando um riacho ensilveirado...
Chatice!
Havia que voltar atrás, transpor o portão, descer o caminho de terra batida e um troço da estrada municipal em direcção á conduta... e uma vez que este terreno também era vedado.
Houve que descer a estrada em busca de outro portão aferrolhado que, depois de aberto e fechado, permitiu seguir a direcção de um pequeno bosque de arbóreas folhosas...
...se bem quando foi sentindo o piso a amolecer por debaixo dos pés... progredindo umas centenas de nauseabundos metros adiante, deu conta que as botas se iam enterrando no terreno cada vez mais pantanoso!
Oh! Yess!
Shiiit!
Era caso para dizer que encontrava precisamente no meio da trampa!
-Arrrggg!
Ao que um tipo se tem que sujeitar para exercer cidadania!!!
A trampa espraiava-se por aquele lameiro!
Com as botas impermeabilizadas em lamas fecais este praça concluiu que se tratava de um processo inovador de tratamento de águas residuais!
Como houvera lido algures, aquilo ia ao encontro do conceito de lagunagem que é o processo que mais se aproxima da simulação das condições naturais com a colaboração de algas e outras plantas existentes no meio ambiente. A água residual atravessa uma série de lagoas (anaeróbias, facultativas, maturação – remoção de organismos patogénicos), onde os processos são idênticos aos que se dão nos meios aeróbios e anaeróbios.
As lagoas arejadas são uma técnica intermédia que conjuga características da lagunagem e das lamas activadas. No entanto, a técnica de lagunagem não é muito utilizada que talvez se explique pelo facto de necessitar de grandes áreas e de ficar dependente das condições naturais, “fugindo” ao controlo humano, além da emissão de odores desagradáveis. Como vantagens há a referir a simplicidade e economia da construção e manutenção da unidade.
Portanto, esta ETAR das Arreciadas funcionava com um sistema misto de bypass e lagunagem!
O lakunagisvypazantis!”
As águas fecais são encaminhadas por gravidade desde as habitações da aldeia até junto da ETAR e daí um bypass manhoso que as orienta para três colectores de esgoto onde como quem não quer a coisa, saltam em erupção, correndo a céu aberto pelos terrenos circundantes!
Um conceito revolucionário... portanto!
Mergulhado nestes pensamentos, foi como este Cidadão se desenvencilhou do meio da m... do lodaçal, se bem quando ao alcançar a vedação se apercebeu de duas caminhantes que subiam pela estrada... o caldo estava entornado!

-Ouça lá! O que é que vossemecê anda por ai a fazer?

Interveio a quarentona mais desenvolta.

-Boas tardes... ando a recolher elementos fotográficos para fazer um artigo num blogue a explicar como funciona uma ETAR...

-Um blogo? São as modernices da interntet?

-Sim... Sou o mentor de “O Cidadão abt”...

-Ai?!  É você?!

-Sim...

-Os meus filhos costumam ver isso e fartam-se de rir com as suas críticas!

-Pois...pois... ainda bem... que assim é...

-Olhe, uma vez que aqui está, até lhe digo que aqueles poços lá em baixo já têm a água inquinada com esta porcaria! Escreva lá isso no blogo! Agente paguemos os nossos impostos para termos um furo e depois é o que se vê! Uma pouca-vergonha! Mas sabe que aqui há uns anos até cá veio a TVI....

-Foi no dia 19 de Agosto de 2006!

Interveio a senhora mais reservada.

-Ó cachopa, tens boa memória! Esteve cá a televisão a fazer uma reportage e o vereador até prometeu que este problema era resolvido em breve! Até lhe digo mais! Os meus filhos têm a reportage gravada lá em casa!

-Sei porque é o dia em que o mê filho  faz anos!

-Isso dava jeito... será que me poderiam emprestar a gravação para a reproduzir no post?

-Quer pôr a gravação num poste? Aquilo está gravado num cêdê! Já o avô também queria aquilo para dependurar na vinha porque diz que espanta os pássaros e agora você quer dependurar o cêdê num poste?

-Não me está a entender... chama-se post a um artigo que se publica na internet...

- Percebi! Você copia a reportage para a internet! Venha daí!

E foi assim que este Cidadão voltou a transpor o portão da vedação, correndo-lhe o ferrolho e dirigindo-se para as senhoras...

-O senhor tem o carro por aí?

-Sim... está além...

-Vossemecê é fino! Deixou o carro escondido! Dá-nos boleia até casa e eu dispenso-lhe o cêdê com o filme!

-Sabem... vão ter que suportar este fedor porque as calças e as botas se encontram neste estado lastimoso...

-Não faz mal! Gostamos de homem a cheirar a cavalo!

-Este cheiro não é propriamente a cavalo...

-Mas faz de conta que é! Vamos lá! Vá! Ala que se faz tarde!

-Não têm medo de se meterem no carro de um estranho?

-Estranho? Se vossemecê nos diz que é o Cidadão abt, é à confiança e não se esqueça que somos duas! Não se atreva!  Ò cachopa, vem daí!

-Eh! Eh! Eh! Mulheres d’armas! Assim é que é!

Foi na companhia de duas quarentonas que o Cidadão abt saiu desta aventura, publicando uma reportagem da TVI feita há quatro anos... em "Arrizíádas" e se mantém actual!
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