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Este militante anti-cinzentista adverte que o blogue poderá conter textos ou imagens socialmente chocantes, pelo que a sua execução incomodará algumas mentalidades mais conservadoras ou sensíveis, não pretendendo pactuar com o padronizado, correndo o risco de se tornar de difícil assimilação e aceitação para alguns leitores! Se isso ocorrer, então estará a alcançar os seus objectivos, agitando consciências acomodadas, automatizadas, adormecidas... ou anestesiadas por fórmulas e conceitos preconcebidos. Embora parte dos seus artigos possam "condimenta-se" com alguma "gíria", não confundirá "liberdade com libertinagem de expressão" no principio de que "a nossa liberdade termina onde começa a dos outros".(K.Marx). Apresentará o conteúdo dos seus posts de modo satírico, irónico, sarcástico e por vezes corrosivo, ou profundo e reflexivo, pausadamente, daí o insistente uso de reticências, para que no termo das suas análises, os ciberleitores olhem o mundo de uma maneira um pouco diferente... e tendam a "deixá-lo um bocadinho melhor do que o encontraram" (B.Powell).Na coluna à esquerda, o ciberleitor encontrará uma lista de blogues a consultar, abrangendo distintas correntes político-partidárias ou sociais, o que não significará a conotação ou a "rotulagem" do Cidadão com alguma delas... mas somente o enriquecimento com a sua abertura e análise às diferenciadas ideias e opiniões, porquanto os mesmos abordam temas pertinentes, actuais e válidos para todos nós, dando especial atenção aos "nossos" blogues autóctones. Uma acutilância daqui, uma ironia dali e uma dica do além... Ligue o som e passe por bons e espirituosos momentos...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

OS BARULHOS DO SILÊNCIO II



OS BARULHOS DO SILÊNCIO II
Segundo capítulo – A viagem
O Cidadão, depois de ter evitado uma carga de água, que lhe poderia provocar uma valente broncopneumonia e deixar de chatear o Camões, tendo que ir parar ao hospital, para além de aturar as melgas das visitas… - “olha, mais uma bolachinha”, “a almofada está bem assim”, “queres puxar-te mais para cima?”, “trago-te una garrafinha de água?”. E o Cidadão implorar: -“Enfermeira! Tragam-me mas é, uma enfermeira! Essa não, que fico mais doente! Tragam-me a outra! A mais nova !! O quê? Não está? Pode ser uma estagiária que não faz mal nenhum!!!” E também de não se conseguir raspar ao encontro da Deolinda, porque isto das Companheiras… são muuuiiito desconfiadas e querem lá ver que, o Cidadão se encontrava todo equipado com aquela farpela, e de mala de cartão nas unhas ia, sorrateiro, em bicos de pés, a raspar-se de casa quando a gata Cristie se interpôs no seu caminho, de cauda, orelhas e bigodes esticados horizontalmente, pelo do lombo eriçado, garras de fora como nunca tinha visto… exibindo os incisivos… a assobiar que nem uma serpente?? O Cidadão até que achou aquilo estranho… poderia ser do perfume patchouly que tinha adicionado aos sovacos e pelos do peito… mas porque seria que a bichana teria abandonado assim as crias… arrastou-a lateralmente do caminho com a sua biqueira “mata – barata”… mas ao transpor o portão… não é que a Companheira estava à sua espera… de mãos nas ancas… parecia mesmo a Deolinda… mas a expressão facial não coincidia, estava mesmo danada, caraças! O Cidadão, como quem não quer a coisa, espreitou para trás da anca direita da rapariga pois pareceu-lhe vislumbrar um volume… o Cidadão ficou estarrecido! Não é que a Companheira tinha o rolo da massa atrás de si? E para que seria? Cá o Cidadão nem ousou indagar! –“Onde pensas que vais assim todo pipi?” Atirou ela, num tom de voz que não deixava margem para dúvidas! Foi o suficiente para desmotivar o Cidadão, tirar-lhe a pica toda, e… fiiiit! Meia volta… volver!
Desta desfeita, resolveu cumprir o prometido, visitando o amigo “latas”! Com a noite pejada de nuvens, brisa fresca e suave… um teor de humidade latente… lá estava o tipo, precisamente no mesmo local… e na mesma posição! Impressionante, como se consegue manter assim durante tanto tempo!!! Mas desta feita, cá o Cidadão, trouxe uma pequena almofada revestida a napa, não fosse encharcar as nalgas, como sucedeu no primeiro encontro… sentou-se com jeito sobre ela, no muro, junto ao artista... o tipo aparentava estar envolto nos seus pensamentos… porque não deu conta cá da presença! O Cidadão meteu conversa assim:
-Olá!
-Chiça, que me assustaste!
-Também não tens que ser sempre tu a assustares as outras pessoas! Dá aí um aperto de mão!
-Não posso!
-Pois… já me tinha esquecido…
E ficámos ali, lado a lado, olhando o vale escuro, na direcção do rio Zêzere, sem assunto… por uns largos segundos, talvez a ver qual de nós daria o mote á conversa… então cá o Cidadão entrou a matar:
-Sabes… Camões… há muita gente que passa semanas de férias na praia… para ficar assim como tu!
-Assim… como?
-Bronzeados!
-Olha! Vai á merda!
-Conta lá, Camões… na outra conversa tinhas ficado naquelas cenas de te recambiarem para os mares…
-Foi… em 1553 aí pelos finais de Março… que embarquei na nau São Bento, capitaneada pelo Fernão Álvares Cabral pertencente a uma vasta frota… uma viagem que durou seis meses! Sabes onde fui bater com os costados?
-Não!
-A Gôa! Isto aí… pelos finais de Setembro! E não é que fui como soldado raso, apesar dos meus estudos e da minha experiência? Foi do caraças! O que um gajo tem de aturar!
-Mas pertencias a uma família de nobres!
-Nobres, o tanas! Devido á minha vida boémia… isso não me valeu de nada!
-Mas ao menos… a viagem foi curtida… não?
-O que é isso?
-O quê?
-Curtida…
-Bonita… boa!
-Bom… curtidos para mim… são os pimentos…
-Vá, continua e deixa-te de tretas!
-O que é isso?
-O quê?
-Tretas…
-Ah! Conversa fiada… balelas…
-Bom… curtida não foi… logo á partida, surgiu um Velho no Cais do Restelo… que nos pregou uma valente seca com conversas esquisitas e incompreensíveis para a época…

—"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimenta”

— "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

—"A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?



— "Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d'ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d'armas te deitou:
-Chiiiu! Fala mais baixo! Já te está a dar outra vez!!!
-Mas és da censuuura, ou quê? Daí rumámos para o mar alto… Ilha da Madeira… Ilhas Canárias… Cabo Verde e São Tiago… costa de África, passando pelo Senegal… Mandinga que agora é a Guiné…Serra Leoa… rumo a Sul… o mar era calmo… o Atlântico… sabes? Aí, tudo se decidia no segredo dos Deuses… No Olimpo, acontecia uma espécie de “Conselho de Ministros” dos Deuses… Júpiter e Vénus apoiavam os intentos dos navegadores Portugueses… no entanto, o raça do Baco era do contra, mas… até concordava com as opiniões de Vénus… pudera! Plantavam-se Padrões Portugueses por tudo quanto era sítio!
-Estava tudo padronizado…
-Âh?! Não chateies! Mas quando atravessei a linha do Equador… pelas Ilhas de São Tomé… apanhei um grande susto!
-Somos uns assustadiços…
- Irra! Porrque no te callas?! Então não é que me aparece um Rei dentro da nau, vestido de azul, saído não sei de onde, com uma grande coroa e de tridente nas unhas? Até pensei que mo ia espetar! Disseram-me ser o Rei Neptuno! E farto deles, logo me tinha que aparecer mais um pela proa !!! Passei-me dos carretos e ia-lhe dando umas mocadas, quando me explicaram ser uma tradição por estas bandas! E afinal o tipo era um marinheiro mascarado… a besta! Enganou-me bem! Mas daí em diante a coisa andou tremida! Tornado, trombas de água, súbitas trovoadas, e o fogo de santelmo… era dos Diabos!
-E o resto da viagem… foi razoável?
-Razoável?? Não! De seguida aportámos no Congo… Cabinda…escalávamos todos os portos, baías, ilhas e deltas sempre em abastecimento, porque o escorbuto assolava na época! Sabes… havia falta de vitamina C… que encontrávamos nos frutos e vegetais em escassez! Ao transpormos o Sul da costa de África aquilo foi o cabo dos trabalhos! Diria mesmo que foi o Cabo das Tormentas! As naus pareciam cascas de noz num barranho cheio de água agitada! Foi um vomitório pegado! Não é que, entretanto, para complicar as coisas, aparece outro velho lá ao longe? Esse não dizia, mas fazia! O gajo era monstruoso… enorme… agitava o mar… nasciam rochas por ali… e os peixes enormes… era um “ver se te avias”, de naus ao fundo! O Adamastor! Um velho mesmo bravo para a idade que aparentava!

-Estás a referir-te à Cidade do Cabo!
-O que é isso?
-Na África do Sul…
-Para mim… é Chinês! Mas ouve, depois foi um sossego pela costa de Sofala acima…
-Beira…
-Já no Indico… rumo a Norte! Entrámos mais á frente no rio dos Bons Sinais para nos abastecermos de água potável…
-Rio Zambeze…
- Depois ancorámos na Ilha de Santa Helena…
-Angoche… ou seja, António Enes…
-An… quê?
-Também não interessa… era tudo em Moçambique… adiante!
-Desta ilha, fomos ancorar noutra um pouco mais a Norte, a Ilha das Cobras… existia por lá, uma vila tipicamente muçulmana povoada pela tribo Swahili, onde o Régulo matreiro nos disponibilizou um piloto experiente para guiar as nossas naus… na direcção de uma armadilha!
-Ilha de Moçambique…

-Pois… isso! Mas a uma certa altura da viagem sucedeu um episódio muito caricato! As nossas naus entraram numa baía mais a Norte… com águas suaves…a Baia de Santa Helena… local aprazível… para poder dar descanso ao material e ás tripulações… mas com todos a bordo… não é que um caramelo resolve pegar num batel e remar na direcção da praia levando meia dúzia de marinheiros? …o gajo queria fazer intercâmbio de mercadorias á fartazana!
-Como se chamava esse aventureiro?
-Fernão Veloso…
-Conheço!

“ À maneira de nuvens se começam
A descobrir os montes que enxergamos,
As âncoras pesadas se adereçam;
As velas, já chegados, amainamos,
E, pera que mais certas se conheçam
As partes tão remotas onde estamos,
Pelo novo instrumento de Astrolábio,
Invenção de sutil juízo e sábio"


Desembarcamos logo na espaçosa
Parte, por onde a gente se espalhou,
De ver cousas estranhas desejosa,
Da terra que outro povo não pisou.
Porém, eu, cos pilotos na arenosa
Praia, por vermos em que parte estou,
Me detenho em tomar do sol a altura
E compassar a universal pintura"


Achámos ter de todo já passado
Do Semicapro pexe a grande meta,
Estando entre ele e o círculo gelado
Austral, parte do mundo mais secreta.
Eis, de meus companheiros rodeado,
Vejo hum estranho vir, de pele preta,
Que tomaram, per força, enquanto apanha,
De mel, os doces favos na montanha”

“É Veloso no braço confiado,
E de arrogante crê que vai seguro;
Mas, sendo um grande espaço já passado,
Em que algum bom sinal saber procuro,
Estando, a vista alçada, co’o cuidado
No aventureiro, eis pelo monto duro
Aparece, e, segundo ao mar caminha,
Mais apressado do que fora, vinha"

“O batel de Coelho foi depressa
Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
Um Etíope ousado se arremessa
A ele, por que não se lhe escapasse;
Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa
Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;
Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
Se mostra um bando negro descoberto".

“Da espessa nuvem setas e pedradas
Chovem sobre nós outros sem medida;
E não foram ao vento em vão deitadas,
Que esta perna trouxe eu dali ferida;
Mas nós, como pessoas magoadas,
A resposta lhe demos tão tecida,
Que, em mais que nos barretes, se suspeita
Que a cor vermelha levam desta feita"

-Humm, estás com essa atenção toda e não me mandas calar… pensativo ou inspirado?
-Pensativo… é que… cá o Cidadão andou por essas paragens… umas águas calmas… via-se o fundo do mar… com areia clara… peixinhos coloridos… corais e plantas marinhas… quando descia a maré… eram centenas de metros de areal intervalados com lagoas azuis de água salgada… e os peixes… isolados nesses charcos… ao largo da baía… barbatanas de tubarões e lombos de golfinhos tracejavam a água… os nativos dedicavam-se á pesca… recorrendo a redes artesanais e armadilhas para o marisco… deslizavam pelas águas suaves em frágeis pirogas… troncos de árvore, escavados… com duas varas transversais firmadas nas extremidades e umas tábuas a servirem de estabilizadores de flutuação… na praia, as palmeiras e coqueiros faziam sombra a cubatas construídas em adobe, paus… e cobertas com colmo… as palhotas… mais para o interior da floresta… densa… ao subir uma encosta suave… existia uma aldeia indígena com todo o seu ambiente e rituais africanos… enraizados de uma cultura puramente Muçulmana! Havia um pontão onde os europeus deitavam moedas de escudo para o mar e os meninos… mergulhavam de seguida… indo apanhá-las para eles… sem qualquer equipamento… designa-se agora… por mergulho em Apneia! E olha que se aguentavam alguns minutos lá no fundo! Era fantástico! O Cidadão fez por lá muito Snorkling… E sabes que mais? Hoje em dia, para se efectuar a rota marítima com um navio convencional, demoramos três dias bem medidos entre Sofala e a baía de Santa Helena! Agora, o Cidadão imagina nesses tempos… ao sabor dos ventos!

-Afinal conheces aquilo…
-E bem… agora designa-se por Nacala… a baía de Nacala! Mas há uma coisa que não chego a perceber… Então… esse Fernão Veloso… não fez parte da tripulação do Vasco da gama?
-Fez!
-Ora, o Vasco da Gama andou nessas viagens… uns anos antes… foi ele que descobriu o caminho marítimo para a Índia… zarpou do Restelo… a oito de Julho de 1497 e chegou a Calecute, na Índia a vinte de Maio de 1498… depois de regressar a Portugal… empreendeu uma segunda viagem com início em 1502… e chegou à Índia em… 1504, regressou novamente ás origens e enveredou por uma derradeira viagem e… em 24 de Dezembro de 1524 morre em Cochim, como Conde da Vidigueira e Vice – Rei…
-Sim… porquê?
-Porque… então… na tua viagem não se passaram essas cenas… uma vez que decorreu mais tarde, em 1553… e nessa época já o Vasco da Gama tinha falecido!
-Pronto… realmente não se passaram… mas se te contasse a minha viagem de ida… tal qual aconteceu… sabes… foi um pouco monótona a partir do Adamastor… irias apanhar uma valente seca! E também prometi ao pessoal que, cada vez que contasse as minhas aventuras, as entrelaçava com as do Gama e a descoberta do caminho Marítimo para a Índia, imortalizando-o, ou seja, falando pela voz dele!
-Mas… sendo assim, como é que sabias dessas aventuras todas com o Gama?
-Ora bem, pelos marinheiros veteranos… os mais velhos que anteriormente tinham participado na primeira expedição do Gama à descoberta do caminho marítimo para a Índia… ainda pela flor da idade!
-Então vá, anda!
-Não posso andar! Bem sabes!!!
-Oh! Não é isso! Continua a contar as tuas aventuras!
-Realmente, quando os nativos correram atrás do Fernão Veloso, bem gritavam: “Na Kala”… “Na Kala”… “Na Kala”... Devia ser um grito de guerra! A ordem de ataque! Então, não é que o tipo parecia um moço de forcados? Sai-me do batel, todo empertigado e avança para o interior da floresta, se bem quando, decorrido algum tempo, volta a surgir, correndo a grande velocidade, á frente de umas centenas de nativos bem equipados de zagaias! Olha, o que lhe valeu foram os nossos homens que partiram em seu auxílio… mas aquilo esteve mesmo negro! Até o Vasco da Gama desembarcou para socorrer o Veloso, com umas dezenas de homens… travaram uma batalha renhida de onde o Gama se saiu ferido numa perna! Depois, vê lá tu, a lata do Veloso… dizia o gajo, que vinha a correr pela colina abaixo com a intenção de socorrer o pessoal da armada! O bazófias!
-É caso para dizer que foi por uma unha negra!
-Ãh? Essa agora não percebi!...
-Prontos, continua…
-Não pudemos ficar nessas paragens por muitos dias porque o pessoal da zona era hostil, zarpámos mais para Norte… e o marinheiro emprestado pelo régulo dirigiu a nossa frota em direcção da Ilha de Quilôa… onde nos aguardava uma cilada…
- Hoje em dia ainda é assim…
- Mas o Gama desconfiou da marosca e tomou conta da situação, bolinando rapidamente, indo ancorar ao largo de Mombaça! Aí, apanhámos um surto de escorbuto onde morreram muitos camaradas e partimos para Melinde!
“E foi que de doença crua e feia,
A mais que eu nunca vi, desampararam
Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Os ossos para sempre sepultaram.
Quem haverá que, sem o ver, o creia?
Que tão disformemente ali lhe incharam
As gengivas na boca, que crescia
A carne, e juntamente apodrecia".

“- Apodrecia com um fétido e bruto
Cheiro, que o ar vizinho inficionava;
Não tínhamos ali médico astuto,
Cirurgião subtil menos se achava;
Mas qualquer, neste ofício pouco instructo,
Pela carne já podre assim cortava
Como se fora morta, e bem convinha,
Pois que morto ficava quem a tinha".

“Enfim que nesta incógnita espessura
Deixamos para sempre os companheiros,
Que em tal caminho e em tanta desventura
Foram sempre conosco aventureiros.
Quão fácil é ao corpo a sepultura!
Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
Estranhos, assim mesmo como aos nossos,
Receberão de todo o Ilustre os ossos".

- Já chega!... Isso tudo no Quénia!
-Quénia? Chama-lhe lá o que quiseres! Ainda capturámos uma embarcação aos infiéis e aportámos em Melinde por uns diazitos a resolver a ressaca do escorbuto! Aqui os povos eram mais amistosos do que nas paragens anteriores em que nos tentaram pregar algumas partidas sacanas e a despedida para a próxima etapa foi envolta numa festa grandiosa! Vê lá que até nos emprestaram um experimentado navegador melindano! Mas o pior ainda estava para acontecer… O sacana do Baco conseguiu convencer uma data de Deuses a dar-nos cabo do canastro! Aí sim… foi uma tempestade medonha! Estavam os portugueses entretidos nas naus a contar histórias uns aos outros para não adormecerem… ainda não havia televisão…tudo começou com umas borrascas, quando se levantou um forte vendaval durante a noite… rasgou velas, arrancou mastros, via-se o fundo do mar, caraças! Para tu imaginares a coisa, até passavam árvores a voar, por cima das naus, vindas da costa! Ficámos todos esfarrapados! As naus alagadas, os mastros partidos, tudo a gritar! Na costa, ao longe, vislumbrava-se tudo dizimado e destruído! Aquilo deve ter sido um furacão dos grandes! Até o valente Vasco da Gama pediu ajuda Divina!
-Espera aí! O Vasco da Gama outra vez?
-Pois! Já te expliquei porquê! Não sejas lerdo!
-Sabes dizer “lerdo?”
-Pois, foram umas tipas que estiveram sentadas á conversa, aqui ao pé de mim... e se eram boas! Se soubesses as conversas que eu lhes apanhei! Olha que as mulheres juntas… têm conversas muito mais desinibidas que os homens… nem imaginas!
-Adiante! Deixemos por agora as mulheres sossegadas!

-Foi com tudo esfrangalhado que avistámos terra firme e de confiança! Numa linda madrugada! Vénus, como sempre, ajudou-nos mais uma vez… enviou-nos umas Ninfas amorosas que acalmaram os ventos enviados por Eolo sob as ordens de Baco, esse grande bêbedo, sempre a verter lágrimas de crocodilo! O estúpido!!! Deve ser das ressacas!! O gajo até conseguia dar a volta a Neptuno, vê lá tu! Entretanto era madrugada quando avistámos a tal costa… avistámos, quer dizer… quem a avistou foi o piloto emprestado pelo Rei de Melinde! Ora se o Gama ficou feliz! Fez uma grande oração de agradecimento aos Deuses amigos e invocou a Glória!
Estava o Cidadão a pensar nisto, em silêncio… eram decorridos uns escassos minutos quando se ouviram passos rápidos e curtos, provavelmente de sapatos femininos… “trep, trep, trep, trep”… foram-se aproximando, o som aumentou progressivamente… “trep, trep, trep, trep”… parou subitamente, arrastou-se sola na calçada… iniciaram… e foram-se afastando num ritmo muito mais rápido…“trep, trep, trep, trep”!
-O que foi aquilo, Camões?
-Era uma mulher… regressa do trabalho, todos os dias a esta hora… passa por aqui em direcção a casa… e logo de manhã, aí pelas oito horas, volta a passar, em sentido contrário… deve ser quando vai para o emprego!
-Ás oito, Camões? … Mas isso são muitas horas de trabalho! Agora vai a ser meia-noite e meia!!!
-Pois é… tem dois filhos a estudar na universidade… e sacrifica-se para que eles estejam bem na vida! Que tenham um futuro promissor! É uma escrava! O marido não ajuda muito lá por casa… e ela, com espírito de sacrifício e amor de Mãe, mói-se a trabalhar para trazer algum ao fim do mês! Para pagar os estudos o alojamento, vestir e dar de comer ao filho e á filha! É revoltante!
-Porque será que ela parou ali atrás?
-Não sabes? Achou estranho estares aqui á conversa comigo… não te esqueças que sou uma estátua… depois teve medo, coitada… e desatou a fugir!
-Agora, fora de brincadeiras e de brejeirices… Camões… as mulheres têm um enorme espírito de sacrifício. Já reparaste? Acumulam as tarefas de Mãe, de esposa, a doméstica, vão trabalhar para sustentar a família… e por vezes… algumas regressam a casa e são espancadas pelos maridos! Estes, por vezes, limitam-se ao horário normal de trabalho, vão para os cafés estourar os fígados em álcool, outros, em casa limitam-se a exigir o jantar, tudo feito, passado e arrumado, sentam-se no sofá a ver os jogos de futebol ou as novelas e servem-se delas como se de objectos se tratassem… É a sociedade machista e hipócrita em que vegetamos! Daí, a razão de ser, que, em caso de sofrimento ou de doença, elas tenham maior resistência do que eles… em situações análogas, não passam de uns matulões piegas e mimados! O mesmo sucede em momentos de risco… elas tem maior capacidade de reflexão, discernimento e optar pela solução mais adequada ao momento, enquanto que eles, tendem para soluções irreflectidas, tomando decisões precipitadas e menos adequadas ao momento! É do treino, da experiência, da genética… e há quem lhe chame… do sexto sentido! Um beijinho para todas as companheiras deste Mundo! Ah, ia-me esquecendo… disse à Companheira que regressava a casa mais cedo… e já é Domingo! Tenho que me ir embora, Camões!
-Não vás, fica mais um pouco!
-Não posso, Camões… mas para a semana, prometo que volto!
-Tu falhastes – me na semana passada!
-Não me ia molhar… pois não? Depois apanhava uma doença e nunca mais nos voltávamos a encontrar!
-Pronto… tens razão!
-Então adeus, Camões…
-Adeus… amigo! Não te esqueças… fico aqui… só… à tua espera!
-Vá, está a arrefecer… tchau!

sábado, 11 de outubro de 2008

OH! DEOLINDA!


OH! DEOLINDA!
Cá o Cidadão estava mesmo para se encaminhar na direcção de Constância afim e cumprir o prometido com o amigalhaço Camões… e não é que vem uma carga de água? Teve que adiar essa confraternização para a próxima semana… até porque desta vez, anda metido numa camisa de onze varas! Uma grande alhada! Vejam lá que, agora, com esta idade se embeiçou pela Deolinda! Aquela cachopa anda a dar-lhe a volta ao miolo! O Cidadão passa os seus tempinhos livres de roda do iutubi a espreitar-lhe os vídeos! È que aquele jeito jingão de alfacinha matreira, aquele menear de ancas, aquele jeito de segurar o quadril… tem posto o Cidadão a fervilhar e de cabeça á roda! Daí, foi consultar a sua Bola de Cristal e ela mostrou-lhe assim… uns fumos esquisitos… tipo rosa claro… envolvidos com outros do género azul bebé… e pelo espaço, uns corações vermelhos e umas rositas, algumas maiores e outras mais pequenitas… e vejam só, há tantos anos que o Cidadão não tinha assim… uma obsessão! E depois… aquela carinha laroca… aqueles timbres de voz, as canções… que nem são fado vadio nem fado coimbrão, também não são jazz nem música ligeira… não são música filarmónica nem folclórica, popular… talvez… ora, o Cidadão anda mesmo desorientado! È que a cachopa não se define, caraças! E então, assim, aquelas cantigas, cá para o Cidadão, são tudo! È uma paixão Platónica, mesmo!!! Entretanto o Cidadão (I have a dream”), sempre fica bem dizer esta cena, anda a pensar em se pirar! Sim, isso mesmo! Em fugir de casa e ir ao encontro da Deolinda! E passa o tempo a magicar como é que há-de fazer a coisa… Irá vestir o seu melhor fato escuro, calçar os sapatos mata-barata em verniz, com dois dedos de peúga branca à vista, colocar a sua camisa de seda branca com riscas verticais e pequeninas e discretas flores… de colarinho longo e bicudo por fora do terno, um palmo de peito peludo ao léu, pé de rosa, no bolso da lapela, penteado puxado para trás, coberto de brilhantina… bigode fino à la matador, mala de cartão com os seus haveres mais necessários e, de passo travado, tipo John Travolta dos seventies, rifar a Companheira, mandar a gata Cristie às urtigas, deixar o Júnior entretido com o computas, meter-se no comboio, rumo á capital, ao encontro da Deolinda! Mas o Cidadão anda um bocadinho desconfiado com aqueles dois mânfios que a acompanham nas suas guitarradas… é que os gajos olham-me para a cachopa de soslaio… e isso não é nada bom… dá um arrepio no estômago do Cidadão! Mas… será que… não! Nãâão! O Cidadão nem quer pensar numa coisa dessas… que fica logo doente!!! Ai… aquela Deolinda… aquela Deolinda… aí aquela Deolinda, o mal que faz… o mal que faz… cá ao rapaz!...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

OU 8 OU 8O!

OU 8 OU 80!

Anónimo disse...

Anda você a passear por Constância a conversar com o camões e a gente em Vale de Rãs com falta de pressão de água nas torneiras e com lodo que nem dá para por uma máquina de lavar a funcionar nem ligar o esquentador da água quente. Veja lá se fala disto.
Jorge F.

7 de Outubro de 2008 8:54

Ôba! Chega prá lá essa bôca! Ocêi mji tá tratando por “você” nei? “Você” é coisa dje estrêbária, pôcha! Ocêi não mji fica tratando por “você”, tá? Não tou paquêrando com meus contcherráneos por causa déssa cêna dje “você”, vale?

No que concerne ao assunto vertido por Vossa Excelência, referente ao oportuno comentário atrás exposto, o Cidadão teve que tomar o cafezito em Vale de Rãs para se inteirar do assunto, fazendo assim… tipo “Zé da Cachoeira” (olá!), e descobriu desta feita, que nos finais da semana transacta, pelas 21 horas, uns senhores municipalizados andaram para aí a apertar as “tarrachas” da rede das águas, reduzindo a pressão do fornecimento de água, de sete bars para uns modestos dois bars e meio, com o intuito de evitar roturas nas canalizações… e consequentemente dificultar o normal funcionamento dos equipamentos domésticos! Ou seja reduziu-se de “oitenta para oito”! E que tal se pusessem a “coisa” aí pelos quatro ou cinco bars? Talvez resultasse…

Mas o Jorge F. não se preocupe… porquanto não tardará muito, serão acrescentadas a “tarifa de baixa pressão”, a “tarifa de lamas”, a “tarifa de interrupção de fornecimento de água”, “tarifa de passagem de ar”, ás já existentes tarifas… deixe cá ver… “de água bem escalonada”, “de disponibilidade”, “de saneamento fixo”, “de saneamento variável”, “de saneamento adicional”, “de resíduos sólidos-fixo”, “de resíduos sólidos-variável”, (com estas, o Cidadão ficou a apanhar bonés) e…” Iva a 5%”, ás nossas facturas taxadas!

È uma taxice!


sexta-feira, 3 de outubro de 2008

OS BARULHOS DO SILÊNCIO I




OS BARULHOS DO SILÊNCIO I
Primeiro capítulo – O homem de bronze
Eram duas horas da madrugada… vejam lá, em vez de o cidadão estar na caminha, andava a vaguear por Constância… só… porque vale mais só, do que mal acompanhado… o nevoeiro teimava em progredir, desde o rio até às primeiras habitações da vila… a luz amarelada… fraca e difusa dos candeeiros da iluminação pública atravessava com dificuldade a névoa e a folhagem das árvores circundantes… o Cidadão tem por vezes a ideia de caminhar solitariamente, nas profundezas das noites mais sinistras em busca do silêncio… e dos barulhos do silêncio… distante de tudo… distante da poluição sonora que impede o escutar de outros barulhos mais discretos… como os da noite… deslocava-se junto ao rio Zêzere, ouvindo o marulhar das águas á sua direita… que se misturavam com as do Tejo… tracejado pelo pio do mocho, um pouco mais distante… o restolhar da folhagem das árvores, tocada pela brisa fria que de vez em quando se fazia sentir na pele… anunciando o início do Outono… a certa altura percepcionou um murmúrio muito ténue… aparentando uma voz grossa, rouca, mas distante… que parecia aproximar-se com o tocar da brisa… dizia qualquer coisa parecida com isto:
- “a, b, b, a; a, b, b, a; c, d , c; d, c, d”…
E passado um bocado, a uma coisa parecida…
-“a, b, b, a; a, b, b, a; c, d , e; c, d, e”…
O Cidadão parou… pôs o ouvido á banda… hum… parecia vir dali… deu mais umas passadas… e o nevoeiro também… pareceu-lhe avistar um vulto mais adiante… curioso… um indivíduo aparentava estar sentado… o Cidadão aproximou-se, mas com cautela… podia ser uma armadilha… olha é um homem sentado numa espécie de um muro e por detrás… uma lápide enorme com uns dizeres… e um enorme meio arco em betão armado… que o nevoeiro ocultava parcialmente…, novamente… aquele murmúrio gutural…
-“a, b, a, b, a, b, c, c,” …
O ruído vinha do vulto… o Cidadão aproximou-se ainda mais… o homem sentado… tinha uma folha nas mãos… olhos bem vivos… e um cabelo ondulado… seria algum fantasma?! O Cidadão, curioso com o encontro imediato de terceiro grau, debruçou-se sobre aquela figura… e com um ar instrospectivo… dando umas pancaditas com os nós dos dedos no peito do artista, de seguida… na testa… resultando num ruído oco e metálico… Hum…
-”Olha! Deve ser mesmo de bronze… um homem de bronze…”
Murmurou o Cidadão… Entretanto reparou no verdete que se alojava nos vincos e dobras das vestes. Com especial incidência na zona dos sovacos… passou-lhe com o dedo indicador… como que a tentar retirar o verdete… quando, subitamente, do interior da figura se ouviu…
- Oh! Oh! Oh! Hiiiiiii… hiiii…. hiiii… hi! Oh! Oh! Oh!
Caraças!!! C’a ganda susto!!! Atão, o gajo não se estava a rir?? O Cidadão depois de recuperar, foi espreitar por detrás do tipo… mas não… não havia ali mais ninguém… só mesmo cá o Cidadão e o tipo de lata!! Hum… já agora… deixa cá ver…
- Ó rapaz… estás bom… ou quê?
Indagou o Cidadão a experimentar… uma vez que não havia ninguém a observar…
-Estou, mais ou menos… enregela-se aqui sentado e quieto… mas depois um tipo habitua-se…

Poças!!! Outro ganda susto!! Não é que o “latas” tinha respondido mesmo??? O Cidadão pigarreou… não queria mostrar medo… sentou-se com jeito junto ao fulano… quando sentiu o traseiro molhado! Tinha-se esquecido que a humidade do nevoeiro encharcara tudo á sua passagem… e voltou á carga…
-Olha lá… como te chamas?!
-Camões, Luís de Camões…
-Então… e estás aqui há muito tempo?
-Desde que aqui me colocaram…
-Ah! Já sei! És o tal que escreveu um livro… não me lembro agora como se chama…
-Os Lusíadas!
-È isso mesmo, “Os Lusíadas”! Mas tu viveste aqui em Constância… foi?
-Por pouco tempo…
E assim se foi quebrando o gelo entre um Cidadão petrificado e o tipo de bronze!
-Bom vou-me embora que já é tarde e a Companheira deve estar a estranhar a minha ausência… com licença.
-Espera! Não vás! Fica mais um bocadinho… tu só tens uma Companheira, é?! Eu tive muuuiiitas!
-Ah sim?!
-Olha. Sabes uma coisa que te digo? As pessoas passam por mim, olham para mim, tiram fotografias ao pé de mim, filmam-se ao pé de mim mas não me ligam pevide! Tratam-me como um objecto!
-Mas isso não acontece só contigo, Camões! Também acontece com muitas pessoas de carne e osso! Principalmente com as mulheres! Enquanto solteiras, são pessoas bastante consideradas… depois de casarem… é o destino de algumas…, passam a ser objectos… no segredo dos seus lares!
-Ooooh! As mulheres, as mulheres! As mulheres foram a minha perdição!
-Então mas porquê?! Fizeram-te mal? Foi?
-Não, mas para isso tinha que te contar toda a minha vida… porque essas ninfas de perdição foram uma constante da minha vida desgraçada! E não estás com vagar para me ouvir…
-Vá! Vai lá contando… que a noite ainda é uma criança… tu disseste que estiveste aqui pouco tempo… então de onde eras?
-Olha, para começar, nasci em Lisboa… aí pelo ano de 1524 ou 1525…
-Então, não sabes o ano em que nasceste?!
-Pois pois… naqueles tempos não havia bilhetes de identidade…
-Mas os teus pais eram de lá ou foram da província?
-Nem eram de Lisboa nem foram da província… eram de Coimbra… descendentes de famílias fidalgas, o que me foi valendo… e também fazia com que atraísse aqueles amigos de ocasião… mas sabes que fiquei sem o meu Pai, ainda era muito novo? Ele partiu para as Índias á procura de ouro e riquezas e por lá ficou… dizem que morreu em Goa… chamava-se Simão… Simão Vaz de Camões… e depois a minha Mãe voltou a casar-se com outro caramelo… que eu não gramava… no entanto o meu tio, D. Bento de Camões, que gostava de mim, pôs-me a estudar nuns conventos de Dominicanos e Jesuítas… daí, esse meu tio mandou-me para Coimbra, a estudar Artes no Convento de Santa Cruz onde ele era o Boss! Introduziu-me nos meios aristocráticos, com a ideia de eu seguir a linhagem da família, onde estudei literaturas e obras de grandes poetas e filósofos! Aí, às escondidas do meu tio, dava umas fugidas e encontrava-me com umas moças jeitosas. O meu tio topou o esquema e recambiou-me para Lisboa… Mas a revolta e a aventura corriam-me no sangue… e aí, ao frequentar os Paços de Noronha embeicei-me por uma dama da Rainha, D.Catarina de Ataíde… e vê lá, tomei-lhe o gosto e enamorei-me pela irmã de D.João III, Rei de Portugal! Uma ganda bronca!!! Era a Infanta D. Maria, vê lá tu!

"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente ;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer..."


-Isso já em Lisboa…
-Pois! Daí em diante, o pessoal colava-se a mim, por causa das minhas relações no seio da nobreza, e era um ver se te avias… noitadas, copos, amigos da vadiagem que provocavam distúrbios na noite Lisboeta, mulherio do pior, bordéis, e o Malcozinhado era o da minha eleição! Sempre a aviar!...
-Então quer dizer que eras um put...
-Eh! Está calado com essas bocas foleiras, pá! Olha que nos podem ouvir! Eu era um mulherengo… isso sim!
-Eras um rabo de saia… um p…
-Queres ver? Queres ver que levas com os “Lusíadas” na carola?!
-Não podes…
-Não posso?! Mas não posso porquê?
-Porque nessa altura ainda não os tinhas escrito!
-Ah! Pois é!
-Mas… continua… vá!
-Ora bem… para aí em 1548, depois de me meter em bastantes rixas e brigas de rua, onde a naifa estava sempre presente…
-Eras um faquir…
-Oh! Pá! Cala-te e deixa-me contar! Tinha os meus 24 anos, quando me recambiaram para a vila de Punhete! Devia ser para acalmar os nervos e a testosterona!!
-E onde era isso!?
-Era aqui! Porra! Também não percebes nada! Dããã!... Aqui sim, é que as ninfas eram formosas!
-O que é isso… das ninfas formosas?
-As gajas eram boas! Boazonas! Podres de boas!!!
-Ah sim mas hoje em dia, continuam a ser bonitas… as raparigas!
-Não, já não é como dantes… estou aqui sentado e bem vejo… passa por aqui com cada comboio!
-Olha que não é bem assim… Camões… as mulheres são sempre lindas… mesmo que não sejam lindas fisicamente, tem a sua beleza interior… e depois… para um sapo, nasce sempre uma sapa… Camões… nunca digas isso de uma mulher! Foi a mais bela obra feita no universo… Camões!
-Sabes que ás vezes também tinha essa noção, quando me apaixonava perdidamente e já não importava a carne, só mesmo o espírito… era assim uma coisa…. Como hei-de dizer… Platónica e entrava em Lirismos!

"Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar,
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada."


-Que lengalenga é essa?
-Lengalenga o caraças! Estes são versos dos meus poemas!!!
-Mas Camões, não me digas que aqui em Constância… tu… também… truca, truca…
-Não gozes… tá! Olha que me passo dos carretos e espeto-te a naifa mesmo aí no pescoço!!
-Não podes…
-Mas não posso porquê? Ãh? Ãh?
-Porque és de bronze…
-Ah! Pois sou… Mas olha, realmente era quase isso… as garotas eram lindas!... Eu ia espreitá-las para ao pé do rio… e vê-las a banharem-se e a lavarem as roupas… naquelas posições… sabes…
-Bom… Adiante! Adiante!
-E era vê-las a banharem-se nas águas do Tejo e do Zêzere… todas despidas…
-Ah! Gandas maluuucas!
-E mais, eu espreitava-as quando iam buscar água às fontes, com as suas bilhas de barro… era vê-las a elevarem as talhas à cabeça… com os seus movimentos sensuais… e depois transportá-las segurando as asas com as mãos… deixando revelar formas inexpugnáveis…
-Hummm… e tu partias-lhes as bilhas todas… estou mesmo a ver!
-Mas não me saem das cabeça… eram uma loucura de mulheres! Até lhes pus um nome lindo… as Tágides! Dediquei-lhes poemas e tudo!

"Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tam suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo."


-Eh! Pá! Fala mais baixo que acordas o pessoal!!!
-Chato, pá! Ès um chato!
-Hoje também há moças assim…
-Há? Só se fôr nas Pomonas! Aí sim… é ver as minhas belasTágides desfilando… e eu aqui... que nem posso fazer nada!!! Um homem não é de ferro! Sabes?
-Mas és de bronze…
-Olha não gozes! Tá? Agora para aqui a zombar com a desgraça dos outros!!!
-Diz-me lá então… quando é isso das Pomonas… para eu poder cá vir espreitar as tuas Tágides?
-È no Dia da Raç… ai, ai, ai, não posso dizer isto que ainda me atiram ali para dentro do rio e afogo-me! Quero dizer… é no Dia de Portugal e das Comunidades, a 10 de Junho… ninguém ouviu eu dizer “Dia da Raça”, pois não?! Senão estou feito e vou parar ao Tarrafal!
-Isso já não existe…
-O quê?
-O Tarrafal!
-Isto está muito mudado!!
-Um bocadinho… E depois? Continua… Que estou a gostar… mas não percebi ainda uma coisa… viveste aqui em Constância…
-Punhete!
-Prontos, aqui em Punhete… mas tinhas que comer… vestir… dormir…. Etc!
-Ah! Pois, eu era um teso, mas um teso de boas famílias… e tinha amigos por aqui, cheios de grana, que me iam sustentando… como eu era brigão, passaram a alcunhar-me do “Trinca Fortes”.
-E tu a fazeres estragos… as miúdas não topavam os teus esquemas? Meu grande maroto!!!
Estragos o caraças!! Também ia escrevendo uns poemas dedicados ás cachopas! E sabes… numa terra de cegos quem tem um olho é rei!...
-E tu tinhas os dois!
-Pois, estás a ver, um tipo brasonado… de boas famílias e com uma ganda lábia… vindo de Lisboa, aqui para a província… elas caíam que nem umas patinhas! O pior era livrar-me dos namorados, dos irmãos e dos cotas delas!
-Estiveste por aqui muito tempo?
-Para aí uns seis meses… mas depois os velhos delas começaram a pedir-me contas…não me largavam a peúga… e tive que me pirar!
-Ah! Estou mesmo a ver… seis meses… coisa e tal… não haviam camisas para te protegeres….
-Não havia camisas para me proteger?! Olha que haviam sim senhor!
-E como eram?
-De latão!!!
-Porra! Olha o meu! E isso funcionava mesmo?
-Se funcionava! Nas rixas com os Mouros infiéis, sempre um gajo se protegia das lanças e das punhaladas dos tipos!
-Não, não são essas das armaduras, as que me refiro… são as outras…
E aqui o Cidadão apontou para o chão.
-Ah! Dessas! Essas eram de tripa!
-De triiipa!!!! Mas tripa de quê?
-Tripa de porco…
-Daquelas de encher chouriços?!
-Sim!
-Ah! Ha! E de encher linguiças!!!
-Essas… usa-las tu!!!
E aqui é que o Cidadão perdeu uma oportunidade de estar calado…
-Eh! Eh! Eh!
-Hum… devem haver por aí muitos descendentes teus…
-Chiiiuu! Não fales alto que nos podem ouvir! Que não lembre, nem ao Diabo!!!
-E a seguir… disseste que te piraste… mas para onde?
-Oh! Pá! Alistei-me na Milícia do Ultramar e no Outono de 1549 zarpei para Ceuta… isso é que era dar porrada naquela mourama! Queríamos expandir a fé Cristã… o mercado e o Império Português… Só que um dia… descuidei-me… e foram-me ao olho!!!
-C’um caraças e isso deve ter doído!!
-Foi o direito… daí em diante comecei a andar de pala, que passou a ser a minha imagem de marca! Vim para Lisboa em 1551, tinha eu… uns vinte e seis anos… entrei em depressão, pessimismos… pus-me a magicar naquelas cenas das Filosofias, existencialismos e coisas assim, o moral e o imoral, e entrei novamente em Lirismos…

"(...) Que castigo tamanho e que justiça.
(...)Que mortes que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimenta."


-Xiiiu! Fala mais baixo, já disse! Já viste as horas que são? Há gente a dormir!!!
-E as gajas gozavam comigo… desprezavam-me… vê lá tu que uma até me chamou “cara sem olhos…” mas também lhe respondi assim:

“Sem olhos vi o mal claro
Que dos olhos se seguiu:
Pois cara sem olhos viu
Olhos que lhe custam caro.
De olhos não faço menção,
Pois quereis que olhos não sejam;
Vendo-nos, olhos sobejam,
Não vos vendo, olhos não são.”


-Entretanto as pessoas iam mudando de ideias e de opinião… consoante os interesses individuais… as conveniências e as necessidades… era a cobiça e a hipocrisia que imperavam…

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o Ser, muda-se a confiança;
Todo mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades."


-Vamos, baixiiinho… Então… e depois?
-Meti-me outra vez na night, na borga, na boémia… e os amigos de ocasião colavam-se a mim! Neste ambiente também arranjei amigos leais, daqueles a sério, que estavam presentes nos momentos bons e nos maus momentos, que discutiam comigo quando era preciso, ou seja, amigos sinceros… até que em 1552, vagueava eu pela noite no largo do Rossio de Lisboa e dou de caras com dois mascarados a esgrimirem com um tipo, cavaleiro Real, de nome Gaspar Borges! O gajo se lutava bem! Era um osso duro de roer! Depois reparei que os mascarados eram meus amigos e estavam á rasca com a destreza do tipo, entrei na rixa em socorro deles! O que fui arranjar! Enfiei uma naifada no cachaço do Borges e aquilo é que jorrava sangue por tudo quanto era sítio! O gajo esteve vai-não-vai para bater a bota! Olha… fui de cana! E estive assim durante um ano a ver o céu aos quadradinhos! A minha mãe, tanto chateou os ministros do Reino e o próprio Borges, para me perdoarem que um dia lá se resolveram a libertar-me… graças, também ao Borges se safar de morte certa! Com um senão: Quatro mil réis de multa, e marchar para a Índia e durante os próximos três anos participar como soldado nas missões das milícias do Oriente!
-Olha lá. Escreve-se “Camões” ou “Camães”?
-“Camões”… porquê? Tu às vezes fazes umas perguntas esquisitas!!
-Nada… não é por nada… era uma dúvida que cá tinha…
Trrim…. tim… tim… trrim… tim… tim… trrim… tim… ti..
-O que é isso?
-È o meu telemóvel!! Tou? Ah! És tu, Companheira… não, não, está tudo bem!... Sim, bem sabes que não… pois… que horas são? Três horas… se vou para casa? Vou pois… onde é que estou? Estou com o Camões! Vou gozar com outra? Não! A sério, estou aqui em Constância… a conversar com o Camões… Quem é esse Camões? A estátua!... Vou bugiar?!... Olha querida… a sério!... Não estou nada numa discoteca… nem numa casa de meninas… é mesmo o Camões… caraças! Vou chatear o Camões? Não, querida… Não bebi nada!! Chata, pá! O quê? A gata Cristie já pariu? São seis? Ganda ninhada!!! Ando na vadiagem?! Sabes bem que não! Já aí vou ter, querida! Até já!
-Então?!
-Oh, Camões, tenho que me ir embora!
-Já?!!!
-Sim… a minha Companheira está fula! Ainda não apareci em casa, a uma hora destas!!!
-Não vás! Fica mais um pouco…
-Não pode ser! Já é tarde! Mas eu volto… Prometo!
-Olha, eu fico aqui sozinho, no meio deste nevoeiro, e cheio de frio… enregela-se aqui! Volta, por favor… não te esqueças de mim… já há muito que não conversava assim com alguém!...
-Adeus Camões… dá aí um aperto de mão!
-Não posso… já te esqueceste que sou de bronze…
-Pois é, Camões… mas olha… volto para a semana… prometo…
-Snif… snif… snif…
-Olha agora! Uma estátua não chora!!!
-Adeus…
-Adeus…
-Tchau!
E assim o Cidadão regressou cabisbaixo, ao seu lar, de rabiosque molhado… e pouca vontade… mas com a promessa de voltar a visitar este grande amigo bronzeado… sim porque o Cidadão gosta de fazer amigos de diferentes ideais, credos ou raças… mesmo que sejam de bronze… ou de granito! E depois… “mexer-lhes nos neurónios”… não se deixando envolver emocionalmente, partindo do princípio que a amizade está acima de tudo!